18 julho 2005

Faça maluquices com meu livro

Escritor de ficção científica usa Creative Commons para lançar obra em domínio público para países em desenvolvimento
Diego Assis, do Estadão

O escritor de ficção científica Cory Doctorow não sabe exatamente o que o futuro reserva para os livros. O que ele sabe é que quer estar bem posicionado quando esse dia chegar.

Someone Comes to Town, Someone Leaves Town (Alguém chega à cidade, alguém deixa a cidade), seu terceiro romance, lançado em papel, PDF, e-book e até numa versão para iPod, é mais um passo nesse sentido - o desconhecido.

"Se você tiver uma imaginação pobre, pode pensar que vamos entrar nessa era como leitores de e-books que simulem a experiência de estar carregando livros ‘reais’, só que digitais" provoca o autor no prefácio do livro. "Não, o uso social dos e-books será bem mais estranho que isso. Algo estranho demais para imaginarmos hoje, como a idéia do mercado de radiofônico era incompreensível para os artistas de vaudeville que acusavam a estação de rádio de pirataria em massa por tocarem suas músicas no ar."

Como continuação de suas experiências, que, no passado, fizeram com que disponibilizasse seus livros para download, o autor tenta agora uma nova tática: mais que distribuição pela net, Someone Comes to Town... tem status de domínio público nos países considerados em desenvolvimento pelo Banco Mundial - Brasil inclusive.

Para tanto, Doctorow optou por adotar a recém-criada Developing Nations License, uma das diversas licenças desenvolvidas pelo Creative Commons (www.creativecommons.org) como uma alternativa legal entre o "todos os direitos reservados" do copyright e o "nenhum direito reservado" do copyleft.

Inspirada nos modelos de software livre, a maioria das licenças CC permitem que terceiros copiem, distribuam eletronicamente e remixem obras intelectuais desde que sem fins lucrativos e creditando o autor. Já com a Developing Nations vale tudo: qualquer pessoa residente nesses países pode baixar, copiar, traduzir, adaptar e até vender versões da obra sem ter de prestar contas ao autor.

Pensando bem, um e-mailzinho não custa: "Quando baixar meu livro, por favor, faça coisas malucas e legais com ele. Imagine novos usos para um livro. E então me conte", sugere
Troque os livros por música, cinema, software e terá horas de papo com esse legítimo cidadão da net. Nascido no Canadá, vivendo entre os EUA e Londres, Doctorow, de 34 anos, é mais facilmente encontrável nos blogs mais espertos da rede, como o Boing Boing (www.boingboing.net), que co-edita.

Por que adotou a licença Creative Commons Developing Nations para o seu novo romance?
Participei da elaboração de um tratado sobre o acesso à informação nos países em desenvolvimento e pensei: se eu me preocupo com essas coisas, deveria experimentar na pele. Não há um mercado gigantesco para o meu trabalho nos países em desenvolvimento, especialmente nos realmente pobres. Muitos , como Brasil, Índia e China poderão se tornar potências industriais ricas. O Brasil não representa parte importante da minha receita hoje, mas, amanhã, poderá ser onde eu ganhe um monte de dinheiro.

Você já lançou outros livros sob licenças Creative Commons. O que aconteceu com eles?
Houve algumas adaptações caseiras, traduções, podcasts... Mas o maior impacto foi ter espalhado os livros para longe. Há pesquisadores que analisam como as pessoas lêem textos no computador. Para isso, podem usar livros antigos, páginas de internet ou os meus livros. Mas não podem usar outras obras da literatura contemporânea ou porque elas não existam eletronicamente ou porque, quando existem, estão fixadas em formatos que restringem seu uso experimental.

O que acha de cadeados e dispositivos como o DRM (Digital Right Managing System)?
São uma batalha perdida desde o primeiro dia. Livros, filmes, músicas, todo arquivo circula livremente, hoje, em redes P2P. A questão é: por que eles nem sequer se importam com essas restrições? E a resposta: sob leis internacionais, se você cria uma restrição de uso, qualquer um que crie uma tecnologia que toque a sua mídia está quebrando a lei. Antigamente, se eu fizesse um disco, você poderia fazer um toca-discos que o tocasse. Foi assim com o rádio, a televisão, o videocassete. No início, as pessoas não sabiam como fazer dinheiro dali e tinham de quebrar a cabeça para sobreviver. O que se quer assegurar agora é que ninguém, no futuro, vá obrigá-los a passar por isso. Eles estarão no controle de como a inovação se dá. E, se houver uma invenção da qual não saibam como lucrar, terão o poder para suprimi-la.

Tempos atrás, você foi convocado para falar contra o DRM na Microsoft. Como foi recebido?
(Risos) Eles foram razoavelmente educados. Poucos eram advogados! Minha esperança é que um ou dois engenheiros ali pensassem: "Eu sei como se faz um media player, esta companhia está perdendo a oportunidade de fazer um player mais lucrativo, por que não começo a fazer media players que compitam com ela?"

O Grokster e os programas de troca de arquivos na web sofreram uma derrota judicial importante no início do mês. O que isso representa para as redes P2P?
Para os usuários, nada. Pessoas conseguem escrever sistemas P2P em 11 linhas de programa na faculdade. Mas isso mina qualquer tipo de invenção que requeira capitalização. Quem quiser começar um projeto agora terá de se perguntar: "Fui suficientemente puro para assegurar que não serei processado? Cometi uma ‘crimidéia’?"